Humanos conversam com pássaros para coletar mel na África

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Com a estratégia, ambos ganham: o homem fica com o trabalho facilitado, e o animal acessa alimento sem precisar enfrentar as abelhas

Claire Spottiswoode/Divulgação

O pássaro da espécie Indicator indicador: relatos sobre cooperação com humanos, que datam desde o século 16, são agora confirmados com metodologia científica

Nem sempre o “melhor amigo do homem” é o cachorro. Em algumas comunidades rurais de países africanos, esse posto cabe a um passarinho. Popularmente conhecida como grande guia do mel, a espécie Indicator indicator não só ajuda os humanos a encontrar a iguaria, como compreende um chamado desenvolvido pelos caçadores-coletores especialmente para se comunicarem com ele. Por sua vez, essas pequenas aves, que também criaram uma vocalização só para essas ocasiões, se beneficiam da relação, comendo a cera deixada pelos caçadores, depois que estes retiram o mel da colmeia.

Caçadores de mel Yao buscam pássaros-do-mel na Reserva Nacional de Niassa, em Moçambique

“Esse é o primeiro trabalho que fornece evidências claras e diretas de que o Indicator responde a sinais especializados humanos e de que associam esses sinais a benefícios em potencial”, diz a principal autora do trabalho, a bióloga Claire Spottiswood, da Universidade de Cambridge e da Universidade de Cape Town. “O pássaro, literalmente, compreende o que o humano diz, sugerindo que o comportamento do grande guia do mel e dos humanos coevoluiu em resposta mútua”, afirma. O artigo foi publicado na revista Science e descreve um raro fenômeno, pois a cooperação, embora muito presente no comportamento humano, é algo raro entre o homem e espécies selvagens.

Orlando Yassene coleta favos de mel de abelhas selvagens, como o auxílio de fumaça, para espantar as abelhas

A relação das comunidades locais com esse pássaro do tamanho de um pardal foi observada com espanto pelo missionário português João dos Santos, que, em 1588, morava em Sofala, atual Moçambique. Ele percebeu que uma pequenina ave costumava visitar a igreja, entrando no templo por buracos na parede, com o claro interesse de se alimentar da cera das velas. No clássico relato Ethiopia Oriental, que escreveu anos mais tarde, ele observa que o pássaro tinha outro hábito peculiar: levava os homens até as colmeias por meio de um chamado.

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As descrições do religioso não deixam dúvida de que Santos falava do Indicator indicator. “Eles se alimentam da cera de abelha e sabem onde ficam as colmeias. Já o homem pode espantar as abelhas e abrir a colmeia usando ferramentas e fogo. Dessa forma, temos a cera para os pássaros e o mel para os homens”, diz Claire Spottiswood. A pesquisadora lembra que muitas outras espécies, como cães e falcões, trabalham em parceria com humanos na busca por comida. Contudo, para tanto, são animais domesticados e treinados para isso. “Já a interação do Indicator indicator com os caçadores-coletores é um exemplo extremamente raro de mutualismo entre animais selvagens e nossa própria espécie”, diz.

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