O lado Mel da Cerveja

Receita de Pão de Mel
29 de setembro de 2015
Mel da Primavera
29 de outubro de 2015


SE A COMBINAÇÃO DE CERVEJAS CLÁSSICAS COM INGREDIENTES OUSADOS É A TENDÊNCIA, A MISTURA DO MEL JÁ É REGULAMENTAR EM ESTILOS BEM CONHECIDOS!
Coluna Pedro Mello e Souza – O Globo

Terminei a última coluna com gosto de mel na boca. E começo esta tentando descobrir a rota do fascínio que adoça o paladar do mundo com sua combinação tão particular de força e delicadeza, vou encurtar essa pesquisa para que as conclusões nos levem aonde nos interessa nesta semana: a cerveja.

Na realidade, já existe um fermentado de mel, um dos mais antigos da Europa, o _mead_, que já andou em lendas como as de Robin Hood. O frei Tuck, um dos parceiros do herói, criava abelhas e fazia o mel e o tal do _mead_. Com essa entrada triunfal, não precisamos falar tanto de sua história. Vou pular, portanto, o imaginário das escrituras, que citam paraísos de leite e de mel. E também a influência do ingrediente nas primeiras cozinhas, especialmente na de Apicius, que, sem exageros, o colocava em tudo. No apanhado que se faz nas primeiras traduções do autor para o inglês, o mel está presente em três de cada quatro receitas, inclusive na de um certo refresco para viajantes. Seria essa bebida um fermentado?

Mas o papo deste bar é cerveja, e, nela, falamos de três presenças de mel. A primeira, a desse _mead_, feito do ingrediente puro, que fermenta e pode gerar bebidas diferentes, inclusive algumas com cor, aroma, gás e frescor das cervejas. São tão antigas que as origens da própria palavra podem estar no sânscrito da Índia. São estilos ancestrais, antropológicos, que estão sendo resgatados por alguns produtores ingleses, irlandeses e até franceses da Bretanha, como seu similar, o hydromel. E, claro, pelos americanos. A Rogue Ales, talvez a marca mais badalada do momento, lançou a hidromel Farms 19 Original Colonies (R$ 53,90, na Cervejastore), uma bela experiência desse gênero, feita com lúpulo e tudo. É cerveja ou não é?

A segunda presença é nos aromas de certos tipos de cervejas, especialmente quando são servidas de forma correta, não muito geladas. Nessa forma, os componentes que dão o aroma, que são exatamente iguais aos do mel, manifestam-se no perfume de certos maltes de cervejas pilsen tchecas e alemãs, no frescor das cervejas de trigo, na densidade secular das trapistas, dos paladares inesperados de algumas gueuzes e lambics — estas últimas duas cervejas são tão especiais que vão ganhar, em breve, uma coluna à parte.

A terceira presença está na simples mistura do mel em algum ponto da produção da cerveja. Normalmente, não entra para adoçar simplesmente, mas na própria fermentação, seja de cervejas de cevadas, seja nas de trigo. É o caso da Honey Kolsch, mais uma da americana Rogue (R$ 29,90 no site do Clube do Malte) e também da doméstica Colorado Appia (R$ 14,50 no Zona Sul). Se a combinação de cervejas clássicas com ingredientes ousados é a tendência, saibamos que a mistura do mel já é regulamentar em estilos bem conhecidos. Está na composição de algumas _blond ales_, das saisons (já falamos delas) e das fruit beers de primavera ou, antes disso, nas cervejas de Natal, de inverno.

Temos mais mel em duas experiências da Bélgica, um país que tem equilíbrio na tradição no colarinho, mas que se torna cada vez mais moderno na linha das cervejas artesanais. Uma delas é a Barbar, feita à moda antiga, com receita de família e lançada no mercado há mais de 20 anos. A outra, Golden Queen Bee, mais moderna e mais firulenta, com o exagero desnecessário dos flocos de ouro. Uma, por R$ 29,90, outra, literalmente a peso de ouro, por R$ 299,90, ambas no Delirium Café. Mesmo diante do pote de ouro, prefiro, pessoalmente, o pote de mel.

Fonte: www.oglobo.globo.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *